O poliglota

March 19, 2018

 

 

Olho pela janela e o céu enegrecido sentencia que o domingo já está quase se confraternizando com a segunda-feira, para alegria dos que preferem mil vezes pegar no batente a ficar resmungando e suando no sofá, em frente à telona recheada de inutilidades. Mas há os que se entristecem, e até entram em rotineira depressão, só de pensar em ir trabalhar onde não gostam ou não se sentem bem, ou seja lá por que motivo for. Acham um saco, desgastante demais.

Hoje mesmo escutei uma história de um sujeito que tinha verdadeiro pavor de ir trabalhar, pois vira e mexe tinha que atender a telefonemas em inglês e, embora soubesse o suficiente, era um exercício absolutamente traumático. Então, para resolver o seu problema, ele criou outro: pediu a um colega fluente na língua que o representasse, usando o seu nome, e atendesse os telefonemas internacionais. Quando esse sujeito faltava ao trabalho e ele atendia a ligação, dizia que o colega (ele mesmo) não estava. Bem, a coisa ficou tão insuportável que, para resumir a história, ele pediu demissão e partiu em busca de outra colocação. Anulou-se a esse ponto.

Claro, é difícil julgar. Já vi publicidade de escola de língua inglesa que mostrava salas de fobias, e entre elas, a da fobia de aprendizado de outra língua. E as cenas passam a ideia de que é normal ter essa “fobia”, para então passar a imagem de uma escola que sabe muito bem de como cuidar disso, e como num paraíso incrustado em algum lugar de um céu permanentemente azul-alaranjado, oferece a solução: venha estudar conosco!

Assim, é melhor dar uma de Manuel Bandeira e ir pra Passárgada: lá você vai ser o máximo, além de ser amigo do rei. Por que não? Não é mais fantasioso do que a imagem sorridente de um ator pronunciando fluentemente “the book is on the table”. Se preferir em alemão, seria “das Buch ist auf dem Tisch” (peguei no Google...).

Mal comparando, mas você vai concordar comigo, aprender uma outra língua é como namorar pela primeira vez: todo mundo já viu filmes românticos, já ouviu amigos falarem sobre o assunto, mas nada é igual como estar frente a frente com a garota, ou garoto (sei lá, hoje em dia é tudo do mesmo gênero...). As técnicas são conhecidas, mas precisam se encaixar com o seu jeito de ser e com o jeito de ser do outro (ou outra). E você sabe, aos poucos, dia após dia, todos pegam o jeito e a coisa flui. Às vezes até demais da conta, e aí vêm as consequências... Mas isso é outra história. E quando, à distância, um pensa no outro, é como se estudassem um jeito de se relacionar, assim como é o estudo para dar conta de uma nova aula da língua. Simples assim!

Para aprender e ganhar confiança e ser fluente em outra língua não precisa ter coragem ou anular o que se sabe, ao contrário, a sua bagagem de conhecimentos não tem fronteiras linguísticas, ela é indispensável na sustentação da ponte que o levará mais do que a outra língua, o integrará a uma nova cultura que se somará à sua, e o elevará exponencialmente a um mundo onde “ser e compartilhar” é a justa razão para entender que “ter” não é mais do que nada diante de suas escolhas e desejos.

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